Era pequeno, meia leca de gente, num tempo em que havia liberdade para as crianças descobrirem sozinhas o mundo, desde que ao anoitecer estivessem em casa para jantar. Escolhia ir aborrecer os pastores e os agricultores, com as botas ortopedicas, que eles acham boas para a lavoura:
- Ouve la rapaz, no Porto podes andar com as botas assim, mas aqui tens que as encerar, da-as cá que eu ponho-lhe cebo.
- Não, que a minha mãe bate-me.
- A tua mãe bate-te?
- Bate, as botas são caras e não posso estragar, o Dr. Júlio de Santa Catarina diz que nunca as posso tirar, se não fico tipo o Charlot.
- Vais dizer a esse Dr. Júlio que ele é burro. Se puser o cebo não entra a chuva, da-me cá as botas.
O rapaz tirava as botas.
- Oh rapaz isso são meias? Tens que usar umas de lã, se não as botas aleijam-te.
- De lã?
- Vou dizer a tia Joaquina para te fazer umas, essas são muito finas.
A tia Joaquina fez-lhe as meias com a lã das ovelhas, como não cabiam nas botas, deram sacos para berlindes. O Ti Horácio comia o cebo que punha nas botas com pão duro, as botas ficaram escuras.
Para o Ti Horácio, o amor de perdição era inspirado em factos verídicos ocorridos na aldeia vizinha, o Romeu e a Julieta eram de Lisboa, e chegava a chorar a contar as historias.
O Ti Reis era agricultor e pastor também, mas pastor que metia o gado na corte, o Ti Horácio deixava o gado `a deriva. O Ti Reis já tinha sido atingido por dois relâmpagos, um dos raios saiu-lhe na ponta do dedo. O rapaz espreitava o Ti Reis , se um raio o tinha atingido, podia ser o super-homem, o homem aranha, ou ate o Hi-man, os super heróis nunca revelavam o que eram. E um dia o Ti Reis bloqueou o caminho a um boi enfurecido, usando as palavras magicas - Uh Uh Ei Boi! - foi estupendo.
O rapaz achava que a magia estava na capa de burel, um dia pediu ao Ti Reis que a pusesse sobre os seus ombros pequenos, caiu logo para o lado, ainda se segurou por uns instantes, mas a força da capa era de tal maneira potente, que o rapaz tombou, perante a gargalhada daquelas bocas semi-desdentadas.
Aqueles dois homens sabiam contar castanhas, arrobas, kg, e mal sabiam ler. Um dia ofereceram-lhe um duende invisível, seu protector, dentro de um cesto de choteiros, o tio Jorge fritou os choteiros.
- Duende que duende, tu é que me saiste um duende, um duende tripeiro e burro. Vais ver nunca comeste nada assim - e obrigou o rapaz a comer a floresta do duende. Mas o duende era esperto e avariou a Famel do Ti Jorge que ficou a penantes vários dias, porque o Zé sucateiro não tinha tempo para as Famel, agora dava prioridade aos mini´s.
O rapaz apreendeu filosofia com aqueles dois velhos, claro que eram tudo filosofias copiadas dos grandes livros, mas isso, só descobriu anos mais tarde e quando descobriu já os velhos tinham morrido e nunca mais viu pastores que soubessem Nietzsche e conhecessem o Sócrates que vivia no antigo castro sozinho, e cujo espírito vagueava pelos ares, de árvore em árvore, quando se ouvisse o vento soprar: - Uhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Se não fossem os velhos, o rapaz não saberia que o seu cócó fumegava, descobriu-o, quando lhe mandaram arrear as calças no mato e limpar o rabo a uma folha de vide. O rapaz demorou muito, ficou pasmado, como era possível, provavelmente tinha levado com um raio e não sabia, o cócó fumegava e saia do rabo tipo aqueles bolos com fruta melada do Progresso.
A Ti Joaquina também morreu, fazia-lhe sempre umas meias para dormir quentinho e quando passava as ferias de inverno na serra calçava as galochas, com aquela lã da ovelha "braquinha" e andava quentinho.
A Ti Joaquina dormia só com cobertores da serra que tiravam a humidade do corpo, e sabia onde as raposas tinham raposinhos, no corgo. E um dia foram la ver , mas as raposas tinham um poder, arrepiavam os humanos, o rapaz estremeceu, a raposa tinha os dentes como aqueles cães que agora se usam, os Pinche. Havia uma raposa seca, tipo estátua, na prateleira do café do tio da Loja, `a noite a raposa conversava com o Gavião, mas de manha estavam os dois no mesmo lugar, como se nada tivesse acontecido.
O rapaz falava pouco, fazia perguntas e depois ficava com eles em silencio a ver as nuvens no Geres. Tinha sempre a sensação de estar a ser espiado, passava meias horas `a espera que os sardoes saíssem das pedras e ele pudesse seguir caminhos. O mesmo acontecia com as vacas, mas essas falavam muito, a cada 5 minutos, perguntavam-lhe que fazia ali escondido atrás do muro. Quando ganhava coragem corria, e elas viravam a cara e diziam a mesma coisa, ou outra, porque a linguagem delas, era monocórdica, muuuuuu. Mas esse muuu tinha muitos significados.
Quando chegava, cansado, eles davam-lhe uma murraça nas costas :
- Olha o fivelas, no Porto matam-te de fome rapaz, tu assim não podes com um cesto de vinho.
Não podia com o cesto, mas podia com o balde da praia, cheio de vagos de uva que a D. Ermelinda rejeitava
- Deita na estrumeira, esses não prestam. - Quando prestavam, subia orgulhoso a escada do lagar e pimba. Um dia deixaram-no pisar as uvas, mas elas ficaram muito chateadas, faziam - Gru Gru - muito tristes, e de noite o rapaz não dormiu com a comichão e com a pena das uvinhas.
Um dia bebeu vinho doce, a mãe nunca soube.
- Tu nunca aceites papas de vinho, tu não tens que sair de casa, tens os livros, os brinquedos, a televisão, nao tens que sair. - Mas ele saia e comia na casa deles, e comia em casa outra vez para que ninguém desconfiasse. Eles pediam-lhe para cantar os passarinhos e o chiquelete, e no fim riam.
- Oh caralho vos no Porto não sabeis falar, abris a boca demais para o "A" - e riam. O rapaz tinha ritmo e ria com eles. Alias que me lembre, a mim, que sou o narrador, o rapaz dizia pouco, ria muito, e cantava. O Patcholy era um sucesso.
- Ora diz la a moda do Patcholy - Enquanto bebiam os 3/4 e comiam coiratos salgados. Falavam do Camões, sabiam 3 ou 4 versos, e do dr. Salazar, um homem que criava ódios e paixões, que acabavam ao soco e `a bastonada, na tasca do Ti da Loja casado com a Ti Cármen, espanhola, de unhas grandes vermelhas cheias de carvão, as mesmas com que segurava o leque rendado e servia os Bijus. Quando enlouqueceu dançava flamengo com um xaile como o da Amália e na varanda do piso alto gritava:
- Ai excomungado Portugal, maldito Portugal, que acabaste com a minha vida.
-A avo dizia-lhe que Tia Carmen gritava mal, a musica não era sobre Portugal, mas sobre a cocaína, que tinha morto o amante de não sei quem, que tocava na grafonola, que o Ti Capador tinha trazido do Brasil, junto com a moda de cortar o cabelo tipo penico e arte de capar porcos.