Bem sei, que passaram muitos dias até recuperar o folgo para a continuação da história. Os meus queridos leitores, desistiram até, não vos censuro, e resolvi condensar. Não tenho veia para grandes contos, com 400 paginas, que foi o limite inicial que nos impusemos. A minha vida foi curta, este exercício da escrita, é a última tentativa de tentar perceber o que foi afinal este flash, a verdade é que se soubesse fotografar, poderia ter reduzido tudo a um único retrato.
A minha adolescência foi rápida, e como rápida só pode ter sido calma. Amores, tive muitos, devastadores, tão eloquentes que não me deixavam concentração para apreciar a carne, ou o peixe, ou a genialidade dos meus pares. Errei porque nunca considerei encontrar a pessoa da minha vida, entenda o leitor, nunca me ocorreu que a pessoa da minha vida, pudesse ser outra que não eu. Nunca me permiti amar alem da fantasia que eu próprio pudesse encenar na minha mente. Se esse amores foram verdadeiros? Não, sinceramente analisando de todos os pontos de vista, chego á conclusão que provavelmente as pessoas que amei, nem sequer existiam.
Acontece, há vidas assim que são um desperdiço de massa corpórea. Nunca fui rejeitado, nunca ninguém me traiu, nunca ouvi um não. Essa foi uma palavra que nunca disse a mim mesmo, a tudo me permiti.
Lembro-me de uma tarde, ainda na terra fria, reunidos numa casa de sobrado, líamos alguns livros, ao som de deep purple, um grupo de música, pode o leitor se estiver interessado pesquisar mais tarde, ou se entender pode faze-lo já. Alguém me repetia, que me amava, que não entendia a argumentação, que eu fazia com base em Schopenhauer. Incrédulo e até irritado, perguntei como se atrevia sequer a intuir o que fosse o amor, com tão pouco tempo de vida.
- A prova de que te amo, é que por ti me atiro desta janela.
Não me deu tempo para rir da metáfora, abriu as portadas, subiu o parapeito e atirou-se para a eira onde se malhava o milho. O silêncio inundou a sala, pude rir e ouvir a minha extenuante gargalhada. Não me levantei para verificar os estragos, compreendam, nas relações há que dar espaço à criatividade, o que pensei no momento, foi que a acção reconforta o protagonista, não se deve interferir nas apoteoses pessoais.
Mais uma queda, pensa o leitor, é um livro apenas de quedas. Não seja injusto, que nesta não havia alcatrão. Agora que vos conto este episodio, terei que admitir que me marcou, de outra forma que interesse teria o meu inconsciente em relata-lo?
Deve ter marcado algo. Não sei. Apenas vos digo, que não sucedeu nada de grave. Com o tempo emigrou para a Bélgica e mandava-me postais de amor, questionando-me se a relação continuava? Nunca soube responder e por isso, nunca lhe respondi.
Talvez deva aqui fazer uma introdução de uma história que contarei mais à frente. Aos 27 anos, o irmão dela, que fazia parte do nosso grupo, foi um dos pouco que conscientemente cumpriu a promessa aprendida com o pequeno Príncipe. Matou-se com um revolver, e uma rosa, à porta da sua amada. Anunciamos a morte na rádio local.
Mas isso, foram anos depois, já estava no Porto, escondido, recusando-me terminantemente a viajar. Sim, fui um cobarde e de nada me valeu a cobardia, morri com poucos mais anos que esses. À minha morte, restavam apenas 3 do grupo de 7. Espero que pelo menos 1 deles, possa ler este livro.
Retrocedamos então por favor. O único interesse na escola, era estudar a matéria , encontrar incoerências e irritar professores. E claro, passar as tardes e mais tarde as noites, debruçados sobre outros conhecimentos.
O meu pai, foi proibido de me visitar. O meu primo que antes tinha por habito assombrar-me, com o relato de corpos decompostos no fundo do Rio Douro, era agora um nabo. Na verdadeira essência gastronómica do termo, não sei se sucede com o leitor, mas o meu sistema diegético não tolera nabos.
Preencher os dados nas fichas escolares, era traumatizante, tão traumatizante que os professores se sentiam na obrigação de me enviar cartas, de me proteger. Na altura, o ensino e os Burn Out dos professores, ainda não eram assunto em debate. Tentava consola-los, a alguns, mas estavam de facto doentes e eu era um jovem, a sua tarefa era árdua e tantas vezes inócua, como poderia ajuda-los? Não ajudei.
E a sua ira contra mim, e contra os alunos em geral, recordava os episódios do Benny Hill. A uma só frase, a reprovação. Impedia-nos de atingir mais do que 10, devíamos ter a noção que nada valíamos perante nossos Mestres, e neste tempo já não era família de nenhum Mestre para poder beneficiar de alguma absolvição.
Também não se exagere agora, fazia tudo parte do teatro e a verdade é que sabendo ainda menos que o que sabíamos antes, passávamos depois nos exames. Era difícil não passar, depois de passar a prova da humilhação.
Mas ganhamos-lhe estima, como dizer, não conhecemos outros, gostamos daquilo a que nos habituamos. Onde já vou eu leitor, porque não fechou o livro? Pode fechar, não vou continuar a falar, do desaparecimento da minha mãe, das quezilas da família, do amor devotado de meu pai. Estamos na adolescência e aí nada se passa, se não eu.
A minha adolescência foi rápida, e como rápida só pode ter sido calma. Amores, tive muitos, devastadores, tão eloquentes que não me deixavam concentração para apreciar a carne, ou o peixe, ou a genialidade dos meus pares. Errei porque nunca considerei encontrar a pessoa da minha vida, entenda o leitor, nunca me ocorreu que a pessoa da minha vida, pudesse ser outra que não eu. Nunca me permiti amar alem da fantasia que eu próprio pudesse encenar na minha mente. Se esse amores foram verdadeiros? Não, sinceramente analisando de todos os pontos de vista, chego á conclusão que provavelmente as pessoas que amei, nem sequer existiam.
Acontece, há vidas assim que são um desperdiço de massa corpórea. Nunca fui rejeitado, nunca ninguém me traiu, nunca ouvi um não. Essa foi uma palavra que nunca disse a mim mesmo, a tudo me permiti.
Lembro-me de uma tarde, ainda na terra fria, reunidos numa casa de sobrado, líamos alguns livros, ao som de deep purple, um grupo de música, pode o leitor se estiver interessado pesquisar mais tarde, ou se entender pode faze-lo já. Alguém me repetia, que me amava, que não entendia a argumentação, que eu fazia com base em Schopenhauer. Incrédulo e até irritado, perguntei como se atrevia sequer a intuir o que fosse o amor, com tão pouco tempo de vida.
- A prova de que te amo, é que por ti me atiro desta janela.
Não me deu tempo para rir da metáfora, abriu as portadas, subiu o parapeito e atirou-se para a eira onde se malhava o milho. O silêncio inundou a sala, pude rir e ouvir a minha extenuante gargalhada. Não me levantei para verificar os estragos, compreendam, nas relações há que dar espaço à criatividade, o que pensei no momento, foi que a acção reconforta o protagonista, não se deve interferir nas apoteoses pessoais.
Mais uma queda, pensa o leitor, é um livro apenas de quedas. Não seja injusto, que nesta não havia alcatrão. Agora que vos conto este episodio, terei que admitir que me marcou, de outra forma que interesse teria o meu inconsciente em relata-lo?
Deve ter marcado algo. Não sei. Apenas vos digo, que não sucedeu nada de grave. Com o tempo emigrou para a Bélgica e mandava-me postais de amor, questionando-me se a relação continuava? Nunca soube responder e por isso, nunca lhe respondi.
Talvez deva aqui fazer uma introdução de uma história que contarei mais à frente. Aos 27 anos, o irmão dela, que fazia parte do nosso grupo, foi um dos pouco que conscientemente cumpriu a promessa aprendida com o pequeno Príncipe. Matou-se com um revolver, e uma rosa, à porta da sua amada. Anunciamos a morte na rádio local.
Mas isso, foram anos depois, já estava no Porto, escondido, recusando-me terminantemente a viajar. Sim, fui um cobarde e de nada me valeu a cobardia, morri com poucos mais anos que esses. À minha morte, restavam apenas 3 do grupo de 7. Espero que pelo menos 1 deles, possa ler este livro.
Retrocedamos então por favor. O único interesse na escola, era estudar a matéria , encontrar incoerências e irritar professores. E claro, passar as tardes e mais tarde as noites, debruçados sobre outros conhecimentos.
O meu pai, foi proibido de me visitar. O meu primo que antes tinha por habito assombrar-me, com o relato de corpos decompostos no fundo do Rio Douro, era agora um nabo. Na verdadeira essência gastronómica do termo, não sei se sucede com o leitor, mas o meu sistema diegético não tolera nabos.
Preencher os dados nas fichas escolares, era traumatizante, tão traumatizante que os professores se sentiam na obrigação de me enviar cartas, de me proteger. Na altura, o ensino e os Burn Out dos professores, ainda não eram assunto em debate. Tentava consola-los, a alguns, mas estavam de facto doentes e eu era um jovem, a sua tarefa era árdua e tantas vezes inócua, como poderia ajuda-los? Não ajudei.
E a sua ira contra mim, e contra os alunos em geral, recordava os episódios do Benny Hill. A uma só frase, a reprovação. Impedia-nos de atingir mais do que 10, devíamos ter a noção que nada valíamos perante nossos Mestres, e neste tempo já não era família de nenhum Mestre para poder beneficiar de alguma absolvição.
Também não se exagere agora, fazia tudo parte do teatro e a verdade é que sabendo ainda menos que o que sabíamos antes, passávamos depois nos exames. Era difícil não passar, depois de passar a prova da humilhação.
Mas ganhamos-lhe estima, como dizer, não conhecemos outros, gostamos daquilo a que nos habituamos. Onde já vou eu leitor, porque não fechou o livro? Pode fechar, não vou continuar a falar, do desaparecimento da minha mãe, das quezilas da família, do amor devotado de meu pai. Estamos na adolescência e aí nada se passa, se não eu.
É obvio que recuperei bem, foi só a pele que me saiu, e saiu-me tantas vezes depois desse acidente, que bem visto, não foi acidente, foi uma morte, como tantas outras antes da derradeira. Falo da queda da bicicleta, o leitor desatento já se tinha esquecido. Estou a limitar-me a corresponder à vossa curiosidade organizada dos factos.
Mazelas, não se notam. Por fim notaram-se e talvez tenha sido isso, que me levou mais rápido ao fim previsto. Se estava previsto como pode ter sido mais rápido que a previsão feita? Ora leitor, são coisas do senso comum, que gostamos de dizer a nós mesmo. O leitor está a controlar em demasia este livro e isso não me está a agradar.
Nunca me zango, tenha calma leitor, já deveria saber que se perante a vida não me zanguei, que razoes me levariam agora depois de morto a zangar-me consigo ou com os seus juízos de valor?
Fiz quinze anos, e visitei meu pai. Como sempre a partir dai, nunca me exigia presença, contacto, não exigia nada. O seu rigor tinha-se esbatido, com a mesma beleza gestual com que Marlin Monroe alisava o vermelho da sua carne alvina. Esta foi uma estúpida metáfora? Olhe que não, o meu pai tinha os olhos perdidos do universo, noutras orbitas que Copérnico não decifrou. Noutros mundos.
Também conheci outros mundos, é mentira. Não conheci. Mas esforcei-me para conhecer, cheguei à conclusão que nada mais existe do que isto, este momento em que vos escrevo, e em que simultaneamente estou morto, e em que paralelamente converso com a minha avó, que exige de imediato um correcção à gramática. Só isto existe e nada mais. É pena, mas é a realidade não embarque o leitor, nessas viagens dos Índios, são uma tribo demasiado religiosa. Não embarque em nenhuma viagem que lhe prometa o infinito, pense bem leitor, se é infinito, como poderá chegar lá?
O prazer da viagem é que conta dirá. Não conta se entretanto, durante toda a viagem não tiver chegado a lado nenhum. É exactamente por isso, que morri, sem poder dizer que amei, se o amor é infinito, como poderia eu ter amado. E não só leitor, só se afirma a ciência, e a ciência dura até uma nova prova que repetidamente comprove, que a anterior está ultrapassada e assim infinitamente. Como tal, deixemo-nos disso, se o infinito existisse, então o leitor não existia, eu não estaria morto, porque nunca teria estado vivo.
E agora, que falo com vocês nesses termos ocorre-me, que é bem possível, pelo menos no panorama ideológico, que a vida não seja isto, e que assombro seria, pensar que aquilo que julgamos vida, é afinal o período em que estamos mortos e daí sonharmos tanto e o sonho importar tão pouco.
Mazelas, não se notam. Por fim notaram-se e talvez tenha sido isso, que me levou mais rápido ao fim previsto. Se estava previsto como pode ter sido mais rápido que a previsão feita? Ora leitor, são coisas do senso comum, que gostamos de dizer a nós mesmo. O leitor está a controlar em demasia este livro e isso não me está a agradar.
Nunca me zango, tenha calma leitor, já deveria saber que se perante a vida não me zanguei, que razoes me levariam agora depois de morto a zangar-me consigo ou com os seus juízos de valor?
Fiz quinze anos, e visitei meu pai. Como sempre a partir dai, nunca me exigia presença, contacto, não exigia nada. O seu rigor tinha-se esbatido, com a mesma beleza gestual com que Marlin Monroe alisava o vermelho da sua carne alvina. Esta foi uma estúpida metáfora? Olhe que não, o meu pai tinha os olhos perdidos do universo, noutras orbitas que Copérnico não decifrou. Noutros mundos.
Também conheci outros mundos, é mentira. Não conheci. Mas esforcei-me para conhecer, cheguei à conclusão que nada mais existe do que isto, este momento em que vos escrevo, e em que simultaneamente estou morto, e em que paralelamente converso com a minha avó, que exige de imediato um correcção à gramática. Só isto existe e nada mais. É pena, mas é a realidade não embarque o leitor, nessas viagens dos Índios, são uma tribo demasiado religiosa. Não embarque em nenhuma viagem que lhe prometa o infinito, pense bem leitor, se é infinito, como poderá chegar lá?
O prazer da viagem é que conta dirá. Não conta se entretanto, durante toda a viagem não tiver chegado a lado nenhum. É exactamente por isso, que morri, sem poder dizer que amei, se o amor é infinito, como poderia eu ter amado. E não só leitor, só se afirma a ciência, e a ciência dura até uma nova prova que repetidamente comprove, que a anterior está ultrapassada e assim infinitamente. Como tal, deixemo-nos disso, se o infinito existisse, então o leitor não existia, eu não estaria morto, porque nunca teria estado vivo.
E agora, que falo com vocês nesses termos ocorre-me, que é bem possível, pelo menos no panorama ideológico, que a vida não seja isto, e que assombro seria, pensar que aquilo que julgamos vida, é afinal o período em que estamos mortos e daí sonharmos tanto e o sonho importar tão pouco.
10 comments:
Eh pá, não acredito! Escreveste isto tudo durante o apagão do facebook? Eia!
nao me gozes Blimunda, tu nao me gozes, é suspeito, ker dizer durante a noite alguem tapa o nariz ao Mestre e depois blokeiam-nos? hum
Pá, o teu último parágrafo fez-me pensar que tarda nada estás a dizer que encontraste 7 virgens que te eram devidas e não entendes porquê.
O resto? A mesma apetecível loucura que te caracteriza.
Afinal, de que morreste tu, ó Cubas?
c'um caraças
c'um caraças, mesmo
n conhecia este espaço
parabéns
a.
caraças, Choco, demoraste a chegar...
Não desisti nada.
Primeiro não sabia do novo post e com tantas actualizações na minha lista de blogues passou-me despercebido. Vou ficar mais atenta e podem vir 400 páginas!
beijinho
Gábi
PS Agora li mais a correr, depois vou tentar voltar para comentar mais demoradamente, como gostar muito de como escreves,
PS2 E apesar de gostar de nabos.
PS 3 Porque entretanto me lembrei e também a correr, espero que tenhas concorrido àquele concurso da Fnac.
Qual concuro? Privada, um concurso e não dizes nada? Vou-te matar.
Concurso, bolas.
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