07/10/2010

Crash

Era o oito, não havia gravidade, e mesmo assim, talvez treinado, deslocou-se como quem flutua mas não perde o ritmo, e bateu-me em cheio na tola.
Dei duas cambalhotas no líquido, as costas projectadas contra o caco apertado onde mal cabíamos os dois, estava cada vez mais pequeno, ele sempre na mesma escala, aproximou-se, e entrou-me no centro do cérebro, fez-se cabo eléctrico.

Começava a perder a consciência, a respiração soltava-se como quem sopra à fogueira, encolhia-me, dava voltas, e aquele maldito oito, uma e outra vez, com a força de quem já se habitou às campainhas, e exagera no batente.

Estava enjoado, reduzido à dimensão da área do wernicke, batalhava, mas só conseguia produzir bolhas no liquido, o oito projectava-se agora, como um raio, iluminava aquele embrião de calças de ganga, e camisa azul, cada vez mais pequeno, cada vez mais quieto, imóvel, qualquer gesto de defesa poderia agora danificar o occipital.

Mas também, já não tinha vontade de defesa, estava ali, de pernas e braços encolhidos, tão bem aconchegado, a descansar e aquele maldito oito, a insistir em desperta-lo para urinar.

3 comments:

Blimunda disse...

E agora? O cabo eléctrico transformou-se em energia ou nem por isso?

Mofina disse...

Oito é a conta o Privada fez. Agora só precisa da prova dos nove.

Amil Neila disse...

O oito, o oito... Não seria o infinito? Já que estamos a andar de lado...