Considerado o verdadeiro herdeiro da ideologia familiar, a salvação da prata da casa, depois das derrotas da geração que me precedeu, era o intocável, recai-a sobre mim o peso de todas as conquistas, que não me pertenceriam.
- Nos teus olhos brilha um futuro risonho, um dia tudo vai pertencer-te. – Era o gosto do meu avô por filmes trágicos –Tens que estudar muito, quando se nasce assim, as responsabilidades são imensas.
E não me esquivava delas, para alem da família, tinha a pequena aldeia que tinha por modos destinar as crianças para destinos elevados, e também eu, tinha a missão de a representar em algumas das suas competições, inter-freguesias.
Na Igreja um lugar de leitor, publicava poemas em jornais de 3ª ordem, e onde fosse preciso um miúdo para elencar um comício, onde fosse candidato alguém que a aldeia defendia, tinha que presenciar, e sorrir, acenar bandeiras.
Neste patamar havia um problema, só presenciava em comícios de direita, a aldeia era maioritariamente de esquerda, mas a presença de alguém da terra, minimizava as discrepancias e a democracia era saudável.
Na escola éramos 3 a representar a comunidade, tínhamos que ser os melhores. A aldeia teria que ter os jovens mais inteligentes, mesmo que falhássemos, éramos aplaudidos, todos lamentavam o analfabetismos e nós, gostávamos da escola, era mais uma bandeira.
Depressa aprendi a fugir ao fisco, ajudava o meu avô, ou antes assistia o meu avô nos seus lançamentos parciais: "por que Mário Soares não merece mais do que o desprezo, e esta família nunca contribuirá para esse socialismo que um dia afundará o país. "
Irrepreensível era a minha conduta para os adultos, embora estranhassem a roupa, alguns boatos, não acreditavam que pudesse ser menos daquilo, que tinham idealizado para mim.
Nos tempos livres esquiava em chapas amarradas a Zundap´s, cultivando a adrenalina, por entre os pinheiros da floresta, onde passava a arrasar, muitas vezes caia, e curava as feridas sem que ninguém percebesse, manobrava a titura de iodo com mestria.
Levei um tiro a defender uma andorinha, nessa altura foi impossível o disfarce e acabei a mancar, neguei até ao último o sucedido. Na mesma floresta, líamos os livros proibidos, São Cipriano, e ao Domingo presenciávamos na missa, líamos, cumpríamos, e piscávamos o olho, na cumplicidade daqueles, que desesperadamente procuravam um contacto com o Diabo.
Já andava de bicicleta, a estrada nova tinha um tapete fenomenal. Das ravinas saltávamos, atravessamos as vias e seguíamos para a floresta a alta velocidade. Eram mais as bicicletas que os carros.
Ate que um dia, num desses saltos para uma curva fechada, e tendo visto o carro, o pequeno carro, distante, considerei ser capaz da façanha de o assustar aparecendo-lhe à frente, vindo do céu. Algo correu mal nesse cálculo.
Acordei, ao meu lado o pastor que era surdo, e a sua esposa. Levantei-me, do chão, meio atordido, pensando tratar-se de mais um sonho. Gritavam, a mulher tinha as mãos cerradas na cabeça, não compreendia, gritavam cada vez mais alto.
Fugi. Correram atrás de mim, gritando cada vez mais alto, que parasse, que teria que ir para o Hospital, que não sabiam como estava vivo. Abrandei, pensei no Hospital, na fúria do meu avô, lembrei-me da bicicleta, dos amigos e não os vi, nem a bicicleta conseguia ver, embora fosse capaz de jurar que ainda há um minuto estava a conduzi-la. Continuei a fugir. Tive a sensação de estar a correr sobre água, olhei para o chão, tinha as pernas cobertas de sangue, sangue que inclusive já saia dos respiradores das sapatilhas.
A minha avó chorava, todos choravam, pediam que não dormisse, tudo se passava numa tela gigante que via de olhos semi-cerrados, a minha avô pedia a um senhor estranho, branco como a cal, da cor das tolhas que ela trazia no colo, que acelarasse.
Um carro parou à frente, era o meu avô e o seu Mercedes de herói, sorri, ele estendeu-me os braços:
- Anda meu filho. – Fez contra-mão, derrapou, acelerou ate ao limite, em algumas travagens o sangue espirrava para o cabedal dos bancos, choravam.
No Hospital, os médicos de sempre, de braços estendidos, abraçavam o meu avô, diziam ter tudo preparado. Deitaram-me numa maca e começaram a falar de livros, de historias, que sabiam que eu conhecia, dado que nas noites de Inverno era a mim, que tocava ler historias aos velhinhos reunidos na escola velha.
Ria-me, e eles sorriam. Disseram-me adeus, nessa altura os médicos eram carinhosos, pediram-me um beijinho, que dei a rir, sempre a rir. E esta foi a minha primeira viagem a mundo indescritível, o meu primeiro contacto com Platão.
Acordei, a minha avó estava numa cadeira de onde se levantou, e como se ela estivesse para morrer enlaçou-me, evitando deixar-me partir, quase me sufocou, e repetia isto de segundo em segundo, como um disco quando se risca, a uma velocidade que o vinil não tinha. Queria acalma-los a todos, que entravam à vez, para chorar, cheguei a pensar que estava num velório daqueles que espreitava escondido, dado nunca me terem permitido assistir.
Os dias iam passando, as pessoas da aldeia vinham visitar-me, inclusive o Senhor Padre do Seminário de Guimarães, o meu tio emigrante pseudo-intelectual, estava a estranhar toda aquela vivencia, choravam num mundo, muito longe do meu, e incomodavam-me, interrompiam os magníficos sonhos que tinha.
Não me doía nada, e via-os todos cobertos de luz, ate ao dia, em que me vi num reflexo e percebi, que não tinha olhos, não via a cor dos meus olhos, mas via-me a mim, como era, exactamente como era, mas sem olhos.
Assim que pude passar as mãos no rosto percebi que era agora feito de casca de carvalho, e a cabeça um enxerto de bolota, feito de pano e ligadura. Não tinha fome e todos me queriam alimentar. Não tinha sede e insistiam para beber, vivia apenas de sonhos, numa calma, que nunca mais experimentei.
As vidas deles eram mesquinhas e as preocupações que demonstravam faziam-me lembrar as minhas amigas formigas. Apenas, que as formigas falavam menos.
Levantavam-me a cama, baixavam, raramente me deixam em paz. Tinha pena deles, pareciam ridículos, mas não tinha coragem de os informar disso. Queriam dormir ali, à vez, não me apetecia falar, e muito menos retira-lhes a liberdade. Se pudessem sentir a liberdade que sentia.
Falava com os outros seres da escada, e as formigas corriam, a cobrir-me o corpo ou a destapar-me, num frenesim, como se não houvesse amanha, quando eu tinha acabado de perceber que haveria toda eternidade, sem nunca puder deixar de existir.
Talvez vos tenha mentido, quando disse que morri em frente ao monitor, ou talvez tenha cometido o erro de vos considerar formigas, já temos confiança suficiente para vos dizer, que morri mais vezes para alem dessa, essa foi apenas aquela em que me fartei de voltar a viver da mesma forma.
Comecei a andar, seguro numa espécie de carrinho e foi nesse dia, que pude escutar o meu amigo, já o tinha visto atrás da mãe, no quarto onde me tinham instalado, mas agora estava sentado ao pé de mim, e falava.
Do dia em que fui atropelado, do dia em que desmaiei na estrada, em cima de uma poça de sangue, do dia em que eles no pinhal, por onde eu devia descer, me observavam e podiam jurar que morri, que bati a choco, como uma pipa quando se desfaz, sem vinho. Contava-me que alguns tinham fugido, e durante dias não falaram do sucedido, que ficaram aliviados quando souberam que tinha acordado no Hospital, onde toda a gente me dava por falecido. Que a minha morte foi anunciada várias vezes.
- Nos teus olhos brilha um futuro risonho, um dia tudo vai pertencer-te. – Era o gosto do meu avô por filmes trágicos –Tens que estudar muito, quando se nasce assim, as responsabilidades são imensas.
E não me esquivava delas, para alem da família, tinha a pequena aldeia que tinha por modos destinar as crianças para destinos elevados, e também eu, tinha a missão de a representar em algumas das suas competições, inter-freguesias.
Na Igreja um lugar de leitor, publicava poemas em jornais de 3ª ordem, e onde fosse preciso um miúdo para elencar um comício, onde fosse candidato alguém que a aldeia defendia, tinha que presenciar, e sorrir, acenar bandeiras.
Neste patamar havia um problema, só presenciava em comícios de direita, a aldeia era maioritariamente de esquerda, mas a presença de alguém da terra, minimizava as discrepancias e a democracia era saudável.
Na escola éramos 3 a representar a comunidade, tínhamos que ser os melhores. A aldeia teria que ter os jovens mais inteligentes, mesmo que falhássemos, éramos aplaudidos, todos lamentavam o analfabetismos e nós, gostávamos da escola, era mais uma bandeira.
Depressa aprendi a fugir ao fisco, ajudava o meu avô, ou antes assistia o meu avô nos seus lançamentos parciais: "por que Mário Soares não merece mais do que o desprezo, e esta família nunca contribuirá para esse socialismo que um dia afundará o país. "
Irrepreensível era a minha conduta para os adultos, embora estranhassem a roupa, alguns boatos, não acreditavam que pudesse ser menos daquilo, que tinham idealizado para mim.
Nos tempos livres esquiava em chapas amarradas a Zundap´s, cultivando a adrenalina, por entre os pinheiros da floresta, onde passava a arrasar, muitas vezes caia, e curava as feridas sem que ninguém percebesse, manobrava a titura de iodo com mestria.
Levei um tiro a defender uma andorinha, nessa altura foi impossível o disfarce e acabei a mancar, neguei até ao último o sucedido. Na mesma floresta, líamos os livros proibidos, São Cipriano, e ao Domingo presenciávamos na missa, líamos, cumpríamos, e piscávamos o olho, na cumplicidade daqueles, que desesperadamente procuravam um contacto com o Diabo.
Já andava de bicicleta, a estrada nova tinha um tapete fenomenal. Das ravinas saltávamos, atravessamos as vias e seguíamos para a floresta a alta velocidade. Eram mais as bicicletas que os carros.
Ate que um dia, num desses saltos para uma curva fechada, e tendo visto o carro, o pequeno carro, distante, considerei ser capaz da façanha de o assustar aparecendo-lhe à frente, vindo do céu. Algo correu mal nesse cálculo.
Acordei, ao meu lado o pastor que era surdo, e a sua esposa. Levantei-me, do chão, meio atordido, pensando tratar-se de mais um sonho. Gritavam, a mulher tinha as mãos cerradas na cabeça, não compreendia, gritavam cada vez mais alto.
Fugi. Correram atrás de mim, gritando cada vez mais alto, que parasse, que teria que ir para o Hospital, que não sabiam como estava vivo. Abrandei, pensei no Hospital, na fúria do meu avô, lembrei-me da bicicleta, dos amigos e não os vi, nem a bicicleta conseguia ver, embora fosse capaz de jurar que ainda há um minuto estava a conduzi-la. Continuei a fugir. Tive a sensação de estar a correr sobre água, olhei para o chão, tinha as pernas cobertas de sangue, sangue que inclusive já saia dos respiradores das sapatilhas.
A minha avó chorava, todos choravam, pediam que não dormisse, tudo se passava numa tela gigante que via de olhos semi-cerrados, a minha avô pedia a um senhor estranho, branco como a cal, da cor das tolhas que ela trazia no colo, que acelarasse.
Um carro parou à frente, era o meu avô e o seu Mercedes de herói, sorri, ele estendeu-me os braços:
- Anda meu filho. – Fez contra-mão, derrapou, acelerou ate ao limite, em algumas travagens o sangue espirrava para o cabedal dos bancos, choravam.
No Hospital, os médicos de sempre, de braços estendidos, abraçavam o meu avô, diziam ter tudo preparado. Deitaram-me numa maca e começaram a falar de livros, de historias, que sabiam que eu conhecia, dado que nas noites de Inverno era a mim, que tocava ler historias aos velhinhos reunidos na escola velha.
Ria-me, e eles sorriam. Disseram-me adeus, nessa altura os médicos eram carinhosos, pediram-me um beijinho, que dei a rir, sempre a rir. E esta foi a minha primeira viagem a mundo indescritível, o meu primeiro contacto com Platão.
Acordei, a minha avó estava numa cadeira de onde se levantou, e como se ela estivesse para morrer enlaçou-me, evitando deixar-me partir, quase me sufocou, e repetia isto de segundo em segundo, como um disco quando se risca, a uma velocidade que o vinil não tinha. Queria acalma-los a todos, que entravam à vez, para chorar, cheguei a pensar que estava num velório daqueles que espreitava escondido, dado nunca me terem permitido assistir.
Os dias iam passando, as pessoas da aldeia vinham visitar-me, inclusive o Senhor Padre do Seminário de Guimarães, o meu tio emigrante pseudo-intelectual, estava a estranhar toda aquela vivencia, choravam num mundo, muito longe do meu, e incomodavam-me, interrompiam os magníficos sonhos que tinha.
Não me doía nada, e via-os todos cobertos de luz, ate ao dia, em que me vi num reflexo e percebi, que não tinha olhos, não via a cor dos meus olhos, mas via-me a mim, como era, exactamente como era, mas sem olhos.
Assim que pude passar as mãos no rosto percebi que era agora feito de casca de carvalho, e a cabeça um enxerto de bolota, feito de pano e ligadura. Não tinha fome e todos me queriam alimentar. Não tinha sede e insistiam para beber, vivia apenas de sonhos, numa calma, que nunca mais experimentei.
As vidas deles eram mesquinhas e as preocupações que demonstravam faziam-me lembrar as minhas amigas formigas. Apenas, que as formigas falavam menos.
Levantavam-me a cama, baixavam, raramente me deixam em paz. Tinha pena deles, pareciam ridículos, mas não tinha coragem de os informar disso. Queriam dormir ali, à vez, não me apetecia falar, e muito menos retira-lhes a liberdade. Se pudessem sentir a liberdade que sentia.
Falava com os outros seres da escada, e as formigas corriam, a cobrir-me o corpo ou a destapar-me, num frenesim, como se não houvesse amanha, quando eu tinha acabado de perceber que haveria toda eternidade, sem nunca puder deixar de existir.
Talvez vos tenha mentido, quando disse que morri em frente ao monitor, ou talvez tenha cometido o erro de vos considerar formigas, já temos confiança suficiente para vos dizer, que morri mais vezes para alem dessa, essa foi apenas aquela em que me fartei de voltar a viver da mesma forma.
Comecei a andar, seguro numa espécie de carrinho e foi nesse dia, que pude escutar o meu amigo, já o tinha visto atrás da mãe, no quarto onde me tinham instalado, mas agora estava sentado ao pé de mim, e falava.
Do dia em que fui atropelado, do dia em que desmaiei na estrada, em cima de uma poça de sangue, do dia em que eles no pinhal, por onde eu devia descer, me observavam e podiam jurar que morri, que bati a choco, como uma pipa quando se desfaz, sem vinho. Contava-me que alguns tinham fugido, e durante dias não falaram do sucedido, que ficaram aliviados quando souberam que tinha acordado no Hospital, onde toda a gente me dava por falecido. Que a minha morte foi anunciada várias vezes.
Tentava lhe dizer que acordei antes disso, que me lembrava de tudo, inclusive de quando me visitou com a mãe, mas naquela altura, a distância que sentia face às suas conversas, aos seus movimentos, fazia com que desistisse de lhes mostrar a verdade.
Queria dizer-lhe que vi a gruta, que estava num degrau, mas ele levantou-se com as lágrimas no rosto, e não esperou. Disse-me adeus do fundo do corredor, onde a mãe o esperava, o corredor branco, talvez , também ele, entrasse na gruta.
Falavam do meu pai, da possibilidade de ele me ver, tudo em ecos. Nunca tive grande proximidade com o espelho, foi sempre um objecto impressionante para mim. Mas naquele dia, tive que me segurar em frente a um, em mais um vómito, por me encherem o estômago atabalhoadamente, e vi o meu rosto negro, como as minhas mãos, como a carne quando se rejeita, e a casca de carvalho escura envelhecida.
Que belo, parecia um guerreiro da guerra das estrelas. Tiraram-me os invólucros do peito, o meu avô disse que tinha ali uma grande maquina, que o meu bombardeiro era como os relógios suíços, nem depois de esmagados, paravam de bater.
Pouco a pouco ia perdendo o contacto com os degraus, a cada ligadura retirada, a cada tratamento, puxavam-me de volta ao formigueiro.
- Estás melhor? – Perguntavam. Não, não estava. Estava melhor do outro lado, a vê-los, mas era evidente que não iam desistir de me requisitar, continuavam a fazer planos.
Chegou o dia de me retirarem o capacete, sem repor um novo, branco, como o que estava habituado, e pude então ver o que os alfaiates tinham feito, mandaram-me baixar a cabeça, voltei a adormecer.
Estes novos soldadinhos de chumbo que me amparavam, contavam histórias, traziam livros, testavam o meu discurso monocórdico, o meu olhar, e os lugares para onde ele se dirigia, o tecto era o meu local preferido, o meu ecrã de televisão, de series gregas.
Comprendia o que diziam, o que queriam de mim, mas não tinha paciência, para responder, que mesquinhinha era a sua lógica, não iam parar de tentar, e cedi, despedi-me dos amigos da escada, prometi voltar, agradeci tudo, a mancar desci abaixo ao formigueiro e anunciei:
- Tenho fome, podem dar-me um creme de cenoura.
Foi uma festa, os soldadinhos de capa na mão, mais uma vez, tristemente mais uma vez, aplaudiam um sucesso que não tive, mais uma vez faziam de mim o herói, o incrível, o inacreditável. Estava farto dessa personagem, incrivelmente farto, de me darem medalhas corrompidas. Deram-me livros com dedicatórias, e na cabeça punham-me spray, para ser ainda mais bonito. Que estupidez, pensei, como sempre sorri, acho que sorrir foi sempre o meu alibi.
Estava branco, tinha perdido todo o Verão, e em casa esperava-me uma comitiva de boas vindas, como se tivesse voltado da guerra. Estrambótico. Quando pude, fui procurar a bicicleta respostas, a minha querida BMX com o guiador partido, arranjei fita cola, tentei recompô-la, mas os braços não ajudavam, e de cada vez que me baixava, virava o mundo, sentei-me no canto da garagem, sozinho, as lágrimas ardiam no rosto ainda disforme, caiam-me nos braços, como se me relembrassem a imensa água do mar do meu querido Porto, que há tantos dias tinha injustamente esquecido. E as ondas rebatiam-me contra o canto, uma atraz da outra, refrescando o calor do meu corpo, com aquela cor, que era a minha, com aquele toar, até que na insistencia morbida, me pegavam nos braços, sacudiam, e puxavam-me quando eu já nadava no fundo do mar, refrescado. Olhava-os pelo canto do olho, e eles reagiam perante a espuma que me escorria dos labios, a furia louca da maresia da minha Foz, com o panico, como se ignorassem que desde tenra idade era um eximio nadador.
Queria dizer-lhe que vi a gruta, que estava num degrau, mas ele levantou-se com as lágrimas no rosto, e não esperou. Disse-me adeus do fundo do corredor, onde a mãe o esperava, o corredor branco, talvez , também ele, entrasse na gruta.
Falavam do meu pai, da possibilidade de ele me ver, tudo em ecos. Nunca tive grande proximidade com o espelho, foi sempre um objecto impressionante para mim. Mas naquele dia, tive que me segurar em frente a um, em mais um vómito, por me encherem o estômago atabalhoadamente, e vi o meu rosto negro, como as minhas mãos, como a carne quando se rejeita, e a casca de carvalho escura envelhecida.
Que belo, parecia um guerreiro da guerra das estrelas. Tiraram-me os invólucros do peito, o meu avô disse que tinha ali uma grande maquina, que o meu bombardeiro era como os relógios suíços, nem depois de esmagados, paravam de bater.
Pouco a pouco ia perdendo o contacto com os degraus, a cada ligadura retirada, a cada tratamento, puxavam-me de volta ao formigueiro.
- Estás melhor? – Perguntavam. Não, não estava. Estava melhor do outro lado, a vê-los, mas era evidente que não iam desistir de me requisitar, continuavam a fazer planos.
Chegou o dia de me retirarem o capacete, sem repor um novo, branco, como o que estava habituado, e pude então ver o que os alfaiates tinham feito, mandaram-me baixar a cabeça, voltei a adormecer.
Estes novos soldadinhos de chumbo que me amparavam, contavam histórias, traziam livros, testavam o meu discurso monocórdico, o meu olhar, e os lugares para onde ele se dirigia, o tecto era o meu local preferido, o meu ecrã de televisão, de series gregas.
Comprendia o que diziam, o que queriam de mim, mas não tinha paciência, para responder, que mesquinhinha era a sua lógica, não iam parar de tentar, e cedi, despedi-me dos amigos da escada, prometi voltar, agradeci tudo, a mancar desci abaixo ao formigueiro e anunciei:
- Tenho fome, podem dar-me um creme de cenoura.
Foi uma festa, os soldadinhos de capa na mão, mais uma vez, tristemente mais uma vez, aplaudiam um sucesso que não tive, mais uma vez faziam de mim o herói, o incrível, o inacreditável. Estava farto dessa personagem, incrivelmente farto, de me darem medalhas corrompidas. Deram-me livros com dedicatórias, e na cabeça punham-me spray, para ser ainda mais bonito. Que estupidez, pensei, como sempre sorri, acho que sorrir foi sempre o meu alibi.
Estava branco, tinha perdido todo o Verão, e em casa esperava-me uma comitiva de boas vindas, como se tivesse voltado da guerra. Estrambótico. Quando pude, fui procurar a bicicleta respostas, a minha querida BMX com o guiador partido, arranjei fita cola, tentei recompô-la, mas os braços não ajudavam, e de cada vez que me baixava, virava o mundo, sentei-me no canto da garagem, sozinho, as lágrimas ardiam no rosto ainda disforme, caiam-me nos braços, como se me relembrassem a imensa água do mar do meu querido Porto, que há tantos dias tinha injustamente esquecido. E as ondas rebatiam-me contra o canto, uma atraz da outra, refrescando o calor do meu corpo, com aquela cor, que era a minha, com aquele toar, até que na insistencia morbida, me pegavam nos braços, sacudiam, e puxavam-me quando eu já nadava no fundo do mar, refrescado. Olhava-os pelo canto do olho, e eles reagiam perante a espuma que me escorria dos labios, a furia louca da maresia da minha Foz, com o panico, como se ignorassem que desde tenra idade era um eximio nadador.
10 comments:
Cum caneco!
Aterrador e belo!
Tem alguém em casa?
Sim senhor, obras em casa!
Fachada apelativa...
:-))))))))) Mofina ve no facebook " o otro" de Borges, é melhor k isto
Estás com o bloqueio, privada?!?
privada, atão?!?
Puto, bazaste para a Rússia à coca de uns rublos?!
Ufa!
Por isso tens uma panca! Belo e aterrador, ainda digo mais.Não ficaste com um aneurisma?
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