Vamos então começar o ensaio do livro. Sabeis que preciso de vós para o escrever, sinto-me tão sozinho meus amigos, que sem vós seria completamente impossível discernir sobre o personagem.
Sois uns privilegiados, podeis acompanhar o desfecho da minha primeira obra-prima.
Morrer no momento em que imaginar a minha morte, post-script.
É natural que com o tempo, este capítulo venha a ser riscado, em prol da compostura.
Como sabeis hoje não se julga a homossexualidade, a avançada Holanda já o previa em 1910. Na época em que começamos este livro, julga-se a pedofilia, a pedofilia homossexual.
Só faço esta introdução, porque sou vaidoso, como vereis. Nada haverá no livro que tenha que ver com este assunto, até porque começamos hoje, mas a historia tem 30 anos de atraso.
E começa assim, com uma vaidade. Toda a família em volta, segurando-o, competindo, como se todos já soubessem que estaria para sempre condenado ao abandono. As vaidades são simples, por isso são vaidades.
- Que bebe bonito. – Diziam.
O bebe bonito era eu. O quase primogénito, e ainda que não o fosse, era o acontecimento mais importante naquela altura. Sim, não tinha morrido ninguém, nem nascido outro bebe, nem sequer uma revoluçãozita. Portanto era o eu o centro das atenções, naquele dia.
Saltitava de braço em braço e assim foi por toda a vida. Os braços foram partindo, um a um, mas continuaram sempre, estendidos para mim, a cada passo dado em caminhos de terra, até ao dia, em que também eu, infelizmente para o mundo, parti. Mas vivi muitos anos, antes disso, viajando de carro para me proteger.
Primeiro os braços de meu avô, a centrar o sorriso, depois os da minha avó a estender-me o fado, o dos tios, das mulheres dos tios, e os de meus pais.
Incrivelmente, talvez porque o encenador tenha achado que tal simbologia era importante, todos os momentos cruciais da vida que a seguir vos relato, envolveram braços.
Os braços primeiro torneados, depois flácidos e enrugados, nos braços está a cronologia do individuo. Há pessoas que julgam que as mulheres, só as mulheres, se prendem nos braços dos homens, para ver se tem aliança, e há homens que retiram do braço a aliança, por esse mesmo rumor.
Mas não é por esse motivo tão simples, é que nos braços se colocam os relógios, e todos procuram desesperadamente saber o tempo que lhes falta. Os braços vão marcando a hora. Nunca usei um relógio de pulso, eu tenho telemóvel.
Vêem porque preciso de vós para escrever este livro? Se não me lembrasse que estavam aí, já não voltava ao ponto onde ficamos na historia, e porque é preciso contar a historia, perguntam vocês?
Tenho a fé, que vendo a história do personagem por outros pontos de vistas, neste caso os vossos, possa entender melhor, esta coisa dos braços e tantas outras coisas. A vida só faz sentido depois que a pessoa morre, até aí é complicada, questionada por todos e todos fazem juízos, todos interferem.
Mas eu não entendi, não entendi nada do que foi, e por isso contando a historia, e imaginando o que pensam dela, sentado aí convosco no sofá, vendo as vossas expressões, conversando, talvez possa entender.
Estava saltando de braço em braço. Era um bebe bonito, de olhos muito claros, pele branca, cabelos negros com caracóis. Meus olhos eram tão claros, que o meu avô chamava-me o rapaz dos olhos brancos e talvez isto seja um bom titulo para o livro.
Pulemos agora, para a minha infância. A minha cama tinha sido comprada em Santa Catarina, como as minhas roupas, os meus brinquedos. No entanto, os dois hippies e eu vivíamos no quarto, da casa da mãe de meu pai.
Sois uns privilegiados, podeis acompanhar o desfecho da minha primeira obra-prima.
Morrer no momento em que imaginar a minha morte, post-script.
É natural que com o tempo, este capítulo venha a ser riscado, em prol da compostura.
Como sabeis hoje não se julga a homossexualidade, a avançada Holanda já o previa em 1910. Na época em que começamos este livro, julga-se a pedofilia, a pedofilia homossexual.
Só faço esta introdução, porque sou vaidoso, como vereis. Nada haverá no livro que tenha que ver com este assunto, até porque começamos hoje, mas a historia tem 30 anos de atraso.
E começa assim, com uma vaidade. Toda a família em volta, segurando-o, competindo, como se todos já soubessem que estaria para sempre condenado ao abandono. As vaidades são simples, por isso são vaidades.
- Que bebe bonito. – Diziam.
O bebe bonito era eu. O quase primogénito, e ainda que não o fosse, era o acontecimento mais importante naquela altura. Sim, não tinha morrido ninguém, nem nascido outro bebe, nem sequer uma revoluçãozita. Portanto era o eu o centro das atenções, naquele dia.
Saltitava de braço em braço e assim foi por toda a vida. Os braços foram partindo, um a um, mas continuaram sempre, estendidos para mim, a cada passo dado em caminhos de terra, até ao dia, em que também eu, infelizmente para o mundo, parti. Mas vivi muitos anos, antes disso, viajando de carro para me proteger.
Primeiro os braços de meu avô, a centrar o sorriso, depois os da minha avó a estender-me o fado, o dos tios, das mulheres dos tios, e os de meus pais.
Incrivelmente, talvez porque o encenador tenha achado que tal simbologia era importante, todos os momentos cruciais da vida que a seguir vos relato, envolveram braços.
Os braços primeiro torneados, depois flácidos e enrugados, nos braços está a cronologia do individuo. Há pessoas que julgam que as mulheres, só as mulheres, se prendem nos braços dos homens, para ver se tem aliança, e há homens que retiram do braço a aliança, por esse mesmo rumor.
Mas não é por esse motivo tão simples, é que nos braços se colocam os relógios, e todos procuram desesperadamente saber o tempo que lhes falta. Os braços vão marcando a hora. Nunca usei um relógio de pulso, eu tenho telemóvel.
Vêem porque preciso de vós para escrever este livro? Se não me lembrasse que estavam aí, já não voltava ao ponto onde ficamos na historia, e porque é preciso contar a historia, perguntam vocês?
Tenho a fé, que vendo a história do personagem por outros pontos de vistas, neste caso os vossos, possa entender melhor, esta coisa dos braços e tantas outras coisas. A vida só faz sentido depois que a pessoa morre, até aí é complicada, questionada por todos e todos fazem juízos, todos interferem.
Mas eu não entendi, não entendi nada do que foi, e por isso contando a historia, e imaginando o que pensam dela, sentado aí convosco no sofá, vendo as vossas expressões, conversando, talvez possa entender.
Estava saltando de braço em braço. Era um bebe bonito, de olhos muito claros, pele branca, cabelos negros com caracóis. Meus olhos eram tão claros, que o meu avô chamava-me o rapaz dos olhos brancos e talvez isto seja um bom titulo para o livro.
Pulemos agora, para a minha infância. A minha cama tinha sido comprada em Santa Catarina, como as minhas roupas, os meus brinquedos. No entanto, os dois hippies e eu vivíamos no quarto, da casa da mãe de meu pai.
6 comments:
Já plantaste uma árvore?
Força Privada, avança... estou contigo!
Gostei muito do Capítulo I
Caramba! Partilhaste a casa do teu pai com dois hippies enquanto eras bébé? Xiiii, agora entendo donde vem a pedrada!
Do teu pai, não, perdão. A casa da mãe do teu pai...apanhaste o jeito ao Sócrates, foi?!!! O filho do meu tio.
Obrigado, vou pensar Mac, como incluir o Dia da arvore em algum capitulo.
Depois dos vossos comentarios, fiquei logo inspirado fiz dois capitulos e com isto, bati o meu recorde de capitulos de um livro.Obrigado
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