22/10/2010

Cap VI

E agora caros amigos, é precisamente aqui que entramos na espiral, preparem-se para um cómodo desalinho. Vamos directos de um tempo em que os iogurtes eram escassos, para o tempo da abundância, o tempo dos direitos, o tempo em que se procura que nada esteja torto.

É obvio, que ainda que o meu pai tenha morto a minha mãe, não acredito. E sinceramente interessa-me pouco. Mais interessante é sem duvida o relato, a memória das gentes daquela aldeia, na soleira, observando, esperando o momento, o crescimento do miúdo novo, o miúdo que não pertence ao sistema instituído.

As autoridades absortas, perante a nova sociedade dos direitos, quase a resvalar para o esquecimento do estrito dever, todos em busca do homem novo, da igualdade.

Ah o que ri durante a vida, é certo que vivi pouco. A minha condição de actor e audiência, esgotou a minha imagem no palco e na plateia já me sentia cansado de mim. Encerrei em grande apoteose, morri ali em frente ao monitor, como quem por fim desafia a metafísica da tecnologia.

E dizem: - então, morre o protagonista e morre o narrador, que raio de livro é este? Vamos junta-lo na colecção da sábado. - E podem faze-los meus amigos, sou da opinião que nenhuma destas paginas tem interesse.

Não descobrimos, embora juntos, novas ciências, não fazemos pesquisas, e perdemos muito tempo com os porquês, e isso não é positivismo. Não tarda, perguntamos em coro, porque é que Hitler, que supostamente matou milhares de pessoas, testou a cápsula de cianeto no seu animal preferido? Não havia homens a jeito? Porque?

Perfeita seria a história, se os assassinos não tivessem família, relatava-se a vida e a emoção do assassínio, e ficávamos por aí, como os preguiçosos da literatura. Mas, este livro não é a história de um assassino, é a história do narrador, e para este, tal como para as historias dos assassinos em geral, a família não influi em nada.

Estamos portanto, nos anos 90, pós-etica, anos de grande riqueza, na aldeia moribunda, que não evoluiu em conceitos, tem agora a tecnologia à disposição.
Não sou um adolescente traumatizado, embora pareça.

De facto, o meu aspecto e o respeito pela vida, pelas regras, pelo jogo, vai de mal a pior. E não vos conto isto, para levantar a moral e deixar para traz os sentimentos tristes, é de facto assim. Não sinto limites, vivo o imediatismo, e o antes, o depois, não me interessam.

Pena que essa procura constante de coisas novas, se tenha tornado um desafio difícil, levando-me a heróicos passos sobre o mais alto dos paredões, por já não encontrar no chão, nada que satisfizesse a fome.

Imaginem a tontura, suponham que num diz desses, me desequilibrava e ficava para sempre preso ao fundo da comporta? É assim que muitos jovens se casam, é a força do imediatismo.

Nessa época, não pensava na atracção dos buracos negros, acreditava piamente, que todo aquele rodopio era criado por mim, o universo nada tinha a ver com isso.
O pior de tudo, é que morri e em vida não compreendi.

É incrivelmente estúpida esta situação. Não era traumatizado, mas era de facto limitado em termos de inteligência. Esforçava-me, rodeava-me das melhores fontes, contudo, não percebia o conteúdo, e com frequência considerei o saber banal, já que eram evidentes as teorias expostas. Só deveríamos aprender aos 60 anos.

Não teria sido remédio para mim, morri antes disso.

Lamento a minha morte, mais do que algum dia lamentei, ainda que hipoteticamente, a morte da minha mãe. A verdade, é que não soube discernir sobre as emoções que tinha, as emoções eram a meu ver para os incultos.

Emoção, criar experiencia novas todos os dias. O mundo mostrou-se tão limitado. Eu sei, é ao contrário, mas na altura pensava assim.

Os meus amigos, não estão a perceber nada disto, mas este capítulo pode perfeitamente ser riscado no fim. Não pensem, é que fujo das consequências do ultimo, que me esquivo ao relato ou à evidencia.
Os meus amigos já sabem, que circulo na recta, de forma circular, esperem algum tempo, rapidamente me equilibro.

3 comments:

Mofina disse...

Protesto veemente...

mac disse...

Humm...

Blimunda disse...

Ah o que ri durante a vida, é certo que vivi pouco. A minha condição de actor e audiência, esgotou a minha imagem no palco e na plateia já me sentia cansado de mim. Encerrei em grande apoteose, morri ali em frente ao monitor, como quem por fim desafia a metafísica da tecnologia. Apenas trocaria o termo audiência por espectador. Sim, não passamos disso nesta vida posta em cena a cada instante: actores, espectadores e ainda, risível qb, é que somos a própria peça.