Estais a pensar na criança, ou nos adultos? Quanto às crianças, essas vêem a vida como se de um desenho animado se tratasse, por péssimo que tenha sido este, há sempre um novo episódio por vir.
O avô não fez uso do maço de notas; ou estava desprevenido, ou tinha acontecido outra revolução em Portugal mais importante do que esta. Entrou no carro, contornou as serras, e eu e o meu pai partimos naquela mesma tarde.
Novos hotéis, sem soldadinhos de chumbo, sem intimidades, sem paragens que durassem mais de uma noite mal dormida.
Se me interrogava sobre aquela viagem, de pai e filho por terras de Espanha?
Não. Porque haveria de o fazer, era uma criança moderna, criada essencialmente por estranhos, habituada a todos os tipos de contacto e desafios, desde que houvesse coisas novas, nada me perturbava.
Admito que sentia alguma falta do jogo dos incentivos.
Mas era evidente que não os receberia, o meu pai não estava a trabalhar e não poderia dizer que passava todo o tempo no trabalho para me recompensar com surpresas, com nível de vida. De resto, dávamo-nos perfeitamente.
Regressamos a Portugal, não era bem Portugal. Era mais pequeno, escuro. Depois de uns dias, o meu pai arranjou uma casa. Uma espécie de casa. Gelada, de pedra, sem madeira nas paredes. Um pequeno rego de água traçava a horta, onde por disparate o meu pai começou a plantar couves, a cortar lenha.
Ate se habituar ao machado, feriu uma canela, torceu um dedo, à noite comíamos sopa, feita num fogão com lenha. Um dia vendeu o carro, comprou-me um kispo, azul com duas riscas brancas como o FCP. Começa a chegar o Inverno, já tinha chovido.
O meu pai disse-me que iria para uma nova escola, com aqueles meninos que passavam aos gritos. Já tinha desistido de perguntar pela minha mãe, não que a tivesse esquecido, mas porque o meu pai, já me tinha dito, que por causa de um problema na família
tínhamos que estar separados, por uns tempos. Que a vida é muito dura e às vezes obriga a grandes sacrifícios, mas que no fim tudo voltaria ao normal.
Tal e qual os desenhos animados, pensava eu. Não podia falar da mãe a ninguém, nem sequer dizer que vinha do Porto. Nem à futura professora. E se o avô aparecesse, devia esconder-me, porque ele podia estar a ser perseguido, por causa daquelas coisas da revolução e da liberdade. Ah dessa revolução já tinha ouvido falar e adorava as aventuras.
Sentia-me um personagem principal, não questionava a estratégia do meu pai, colaborava ao ponto, de responder a esta conversa em sussurro. Uma grande aventura.
O que não equacionava na altura eram as variáveis exógenas. Estava preparado para prever o sistema de recompensas com os adultos até ao mínimo detalhe, mas não sabia nada para além do jogo de desafio, recompensa - desafio, recompensa.
Quando na nova escola, os meninos se juntaram para me gritar que não tinha mãe, como se fosse um insulto, não soube como reagir. Como havia de responder educadamente e com inteligência à provocação? E se o fizesse qual era a minha recompensa? E alias, nem sequer podia falar. Fiquei ali, parece que me revejo, de olhos abertos, com o Kispo amarfanhado debaixo da mochila, parado, ao cimo das escadas, a ver o mais escuro e gordo deles, a correr para mim e a lançar-me de volta ao primeiro patamar.
Cai no chão desamparado, a minha cabeça fez ricochete no chão de cimento. Era o meu primeiro dia de escola.
A professora, ignorando que eu era um menino fraquinho, branquinho, sem defesas, limitou-se a dizer à turma que todos os meninos tinham mãe. E fim de assunto, pensei em inúmeras vinganças, escrever no quadro que o gordo era burro, por uma taxa na sua cadeira.
À minha frente a professora maxilenta, de saia pelo joelho, com um olhar recto, começava nas minhas sapatilhas e terminava na ponta dos meus caracóis, sempre a prumo.
Tinha uma estranha afinidade pelo meu pai. Que o meu pai era um grande homem por criar um filho, isto dizia-me, enquanto eu bebia o leite fervido num bule, na minha caneca do Pedro, da Heidi e do avô, que não resistiu muitos dias, nas mãos do menino que por educação e formação escolar, tinha que lavar as canecas de todos e o bule, só a minha era de barro, partiu-se, escapou-lhe da mão, e todos se riram.
Tinha visto a Heidi no cinema, e o Bambi, na sala bebe, e por momentos viajei para o Porto, para correr atrás das pombas, roubar flores ao município para dar à minha mãe. Escorregar no passeio, vestir a camisola do FCP e todos aplaudirem, já nem o sotaque usava. O FCP não era grande clube na época, e a minha mãe dizia que só gostavam do FCP os animais, era melhor ser do Benfica. Mas eu era do FCP, os fortes são do FCP, fortes enquanto não vão parar a uma terra como esta. Ali a minha força e agilidade não valiam nada, era um cobarde.
Fui interrompido por aquilo que parecia um exercito de botas cheias de lama e bosta, a anunciarem o fim do recreio. Ainda bem que tinha terminado, não sabia jogar aqueles jogos, de rolar na lama, de dar pontapés, e puxar cabelos. Grande era o meu martírio, jogava ao boxe com o meu pai, e futebol, mas não tinha qualquer hipótese.
Chamavam-me mudo.
E quando um dia me apanharam a falar com o urso no quintal, a situação ficou insustentável, sim, espreitavam-me na minha própria casa.
Decidi, que era hora de começar a exigir, nomeadamente um maço de notas e uma biblia, ou então a minha mãe.
- Um homem não se deixa levar pelas emoções - dizia meu pai - tu sais daqui como um senhor que és, não ligas a ninguém, vens para casa ver os bonecos, estudar, para a tua vida. Aquelas crianças não são iguais a ti. Não deves perder um minuto a pensar nelas. Tu, tu é que és importante. Foca-te nos teus objectivos, estudar.
E não eram iguais, alem de maiores, eram fortes. Mas se eu era tão inteligente e tão bom menino que até podia ter um futuro brilhante na França, que estava a fazer numa terra onde todos me insultavam?!
Frequentava a catequese, a teoria de aceitar todos os insultos porque um dia, nem que fosse depois de ser crucificado, seria um grande mentor, animava-me, imaginava-me a dizer grandes coisas, como dantes fazia, desta vez seria com um olho negro e a cabeça rachada, mas nem assim desistiria. Apesar desses breves instantes, os estrunfes começavam a ser a minha principal devoção.
A vizinha que mudava o curso do rego do quintal, um dia perguntou-me pela minha mãe, instintivamente disse-lhe que não sabia.
- Pois meu menino, está no ceú não é?
Ah que terra horrível, que saudades do Porto, do triciclo. O meu pai comprou-me uma bicicleta, não sabia andar, mas também pouco tinha andado de triciclo. Era agora o melhor aluno, sem a mínima dificuldade, e até isso me causava problemas, com os alunos e com os pais dos alunos, que diziam que era tudo graças às visitas da professora a minha casa. Verdade seja dita, quando ela chegava ia com o meu pai para o quintal, não sei para onde, nem me reconhecia.
O meu pai começou a trazer livros, e chocolates, tinha arranjado um emprego na construção civil. Os meninos diziam que ele nem um balde de massa sabia carregar.
As suas mãos cerceias nos dedos, o cabelo a mudar de cor, e acho que começava a gostar da professora, gostava mais do que eu, isso não era difícil.
Aprendi o caminho da mercearia, a custo o meu pai começou a permitir-me tratar da compra do pão. O senhor que o vendia, cuspia nas mãos antes de abrir o saco, depois metia as mãos lá dentro e ia contando. – Uma dúzia? Oh rapaz, estás a ouvir é uma dúzia? - Todos cuspiam, era uma terra muito fria.
Foi na mercearia que pela primeira vez desculpei aqueles meninos, dei razão à sua animalidade. Os velhos soltavam gazes para as mãos e sufocavam-nos com isso.
Corria sem parar até casa, tal era o sinistrado daquele universo, um dia embati numa senhora muito velha vinda no nada, sem dentes, com um pau na mão, corri tanto que quando me voltei para trás estava tão longe, que já não a via. Às vezes escondiam-me atrás de uma árvore para descansar. Mas, as arvores falavam, gemiam, com vozes roucas.
Tinha pesadelos, otites, constipações. Quando visse a avó logo lhe diria, do magnífico ar puro do campo. Das pessoas boas e honestas, sem as vaidades da capital, ou das grandes cidades.
Desejei revê-los a todos, mas deveria ter sido mais preciso no sonho. Na vida, foram poucos os desejos, que articulei com todas as coordenadas.
Não saiamos dali, porque o pai não tinha carro.
Chegou o Natal, o meu pai representou em miniatura, tudo o que costumava ser o nosso Natal, e eu tratei de desenhar à escala as pessoas que faltavam. Tínhamos uma árvore, que no dia seguinte tinha presentes, mas os presentes, as recompensas pareciam não funcionar naquela terra. Ali, as crianças não faziam gestos educados para obter recompensa. Limitavam-se se a apertar o nariz e as sobrancelhas e a dizer:
- Oh mãe dá-me.
Eram sacudidas de seguida, e o dá-me reportava-se a rebuçados, e chiqueletes. Mas não as chiqueletes de caixinha, que faziam musica, que tinham uma música. Não havia música por ali, só na televisão e desligavam, se estivesse a dar na mercearia.
Na festa de passagem de ano, roubaram os vasos do meu pai, porque era tradição, a festa deles era passada assim, a nossa foi com as doze passas, com orangina e champanhe, não pedi doze desejos, esbarrava sempre em um, aquilo estava a ser muito divertido até podia ser uma grande aventura, não queria ser ingrato, mas queria regressar a casa.
- Se desejares com muita força e empenho as coisas acontecem.
O meu pai tinha-se tornado um excelente cozinheiro, e já levava colegas para casa, jogavam as cartas. Um dia foi com eles a uma cidade e trouxe-me um Snoopy.
- Mas eu já tenho um pai.
- Mas não está aqui, está em casa.
- E quando voltamos para casa?
- Não te preocupes, as coisas estão quase resolvidas, em breve vamos voltar.
Regressei da escola, à frente da casa estava um carro da policia, igual aos que eu estacionava no meu playmobil, mas de sirenes desligadas. E do outro lado, estava o Mercedes, o Mercedes do meu avô. E se entrasse no carro e me escondesse, depois ia com ele, mas o meu pai ia ficar muito triste.
Entrei pelo quintal, devagarinho, fui visto por todos os vizinhos que estavam já nas janelas e nas portas, acho que naquele momento os meninos fedorentos estavam com inveja de mim.
O avô não fez uso do maço de notas; ou estava desprevenido, ou tinha acontecido outra revolução em Portugal mais importante do que esta. Entrou no carro, contornou as serras, e eu e o meu pai partimos naquela mesma tarde.
Novos hotéis, sem soldadinhos de chumbo, sem intimidades, sem paragens que durassem mais de uma noite mal dormida.
Se me interrogava sobre aquela viagem, de pai e filho por terras de Espanha?
Não. Porque haveria de o fazer, era uma criança moderna, criada essencialmente por estranhos, habituada a todos os tipos de contacto e desafios, desde que houvesse coisas novas, nada me perturbava.
Admito que sentia alguma falta do jogo dos incentivos.
Mas era evidente que não os receberia, o meu pai não estava a trabalhar e não poderia dizer que passava todo o tempo no trabalho para me recompensar com surpresas, com nível de vida. De resto, dávamo-nos perfeitamente.
Regressamos a Portugal, não era bem Portugal. Era mais pequeno, escuro. Depois de uns dias, o meu pai arranjou uma casa. Uma espécie de casa. Gelada, de pedra, sem madeira nas paredes. Um pequeno rego de água traçava a horta, onde por disparate o meu pai começou a plantar couves, a cortar lenha.
Ate se habituar ao machado, feriu uma canela, torceu um dedo, à noite comíamos sopa, feita num fogão com lenha. Um dia vendeu o carro, comprou-me um kispo, azul com duas riscas brancas como o FCP. Começa a chegar o Inverno, já tinha chovido.
O meu pai disse-me que iria para uma nova escola, com aqueles meninos que passavam aos gritos. Já tinha desistido de perguntar pela minha mãe, não que a tivesse esquecido, mas porque o meu pai, já me tinha dito, que por causa de um problema na família
tínhamos que estar separados, por uns tempos. Que a vida é muito dura e às vezes obriga a grandes sacrifícios, mas que no fim tudo voltaria ao normal.
Tal e qual os desenhos animados, pensava eu. Não podia falar da mãe a ninguém, nem sequer dizer que vinha do Porto. Nem à futura professora. E se o avô aparecesse, devia esconder-me, porque ele podia estar a ser perseguido, por causa daquelas coisas da revolução e da liberdade. Ah dessa revolução já tinha ouvido falar e adorava as aventuras.
Sentia-me um personagem principal, não questionava a estratégia do meu pai, colaborava ao ponto, de responder a esta conversa em sussurro. Uma grande aventura.
O que não equacionava na altura eram as variáveis exógenas. Estava preparado para prever o sistema de recompensas com os adultos até ao mínimo detalhe, mas não sabia nada para além do jogo de desafio, recompensa - desafio, recompensa.
Quando na nova escola, os meninos se juntaram para me gritar que não tinha mãe, como se fosse um insulto, não soube como reagir. Como havia de responder educadamente e com inteligência à provocação? E se o fizesse qual era a minha recompensa? E alias, nem sequer podia falar. Fiquei ali, parece que me revejo, de olhos abertos, com o Kispo amarfanhado debaixo da mochila, parado, ao cimo das escadas, a ver o mais escuro e gordo deles, a correr para mim e a lançar-me de volta ao primeiro patamar.
Cai no chão desamparado, a minha cabeça fez ricochete no chão de cimento. Era o meu primeiro dia de escola.
A professora, ignorando que eu era um menino fraquinho, branquinho, sem defesas, limitou-se a dizer à turma que todos os meninos tinham mãe. E fim de assunto, pensei em inúmeras vinganças, escrever no quadro que o gordo era burro, por uma taxa na sua cadeira.
À minha frente a professora maxilenta, de saia pelo joelho, com um olhar recto, começava nas minhas sapatilhas e terminava na ponta dos meus caracóis, sempre a prumo.
Tinha uma estranha afinidade pelo meu pai. Que o meu pai era um grande homem por criar um filho, isto dizia-me, enquanto eu bebia o leite fervido num bule, na minha caneca do Pedro, da Heidi e do avô, que não resistiu muitos dias, nas mãos do menino que por educação e formação escolar, tinha que lavar as canecas de todos e o bule, só a minha era de barro, partiu-se, escapou-lhe da mão, e todos se riram.
Tinha visto a Heidi no cinema, e o Bambi, na sala bebe, e por momentos viajei para o Porto, para correr atrás das pombas, roubar flores ao município para dar à minha mãe. Escorregar no passeio, vestir a camisola do FCP e todos aplaudirem, já nem o sotaque usava. O FCP não era grande clube na época, e a minha mãe dizia que só gostavam do FCP os animais, era melhor ser do Benfica. Mas eu era do FCP, os fortes são do FCP, fortes enquanto não vão parar a uma terra como esta. Ali a minha força e agilidade não valiam nada, era um cobarde.
Fui interrompido por aquilo que parecia um exercito de botas cheias de lama e bosta, a anunciarem o fim do recreio. Ainda bem que tinha terminado, não sabia jogar aqueles jogos, de rolar na lama, de dar pontapés, e puxar cabelos. Grande era o meu martírio, jogava ao boxe com o meu pai, e futebol, mas não tinha qualquer hipótese.
Chamavam-me mudo.
E quando um dia me apanharam a falar com o urso no quintal, a situação ficou insustentável, sim, espreitavam-me na minha própria casa.
Decidi, que era hora de começar a exigir, nomeadamente um maço de notas e uma biblia, ou então a minha mãe.
- Um homem não se deixa levar pelas emoções - dizia meu pai - tu sais daqui como um senhor que és, não ligas a ninguém, vens para casa ver os bonecos, estudar, para a tua vida. Aquelas crianças não são iguais a ti. Não deves perder um minuto a pensar nelas. Tu, tu é que és importante. Foca-te nos teus objectivos, estudar.
E não eram iguais, alem de maiores, eram fortes. Mas se eu era tão inteligente e tão bom menino que até podia ter um futuro brilhante na França, que estava a fazer numa terra onde todos me insultavam?!
Frequentava a catequese, a teoria de aceitar todos os insultos porque um dia, nem que fosse depois de ser crucificado, seria um grande mentor, animava-me, imaginava-me a dizer grandes coisas, como dantes fazia, desta vez seria com um olho negro e a cabeça rachada, mas nem assim desistiria. Apesar desses breves instantes, os estrunfes começavam a ser a minha principal devoção.
A vizinha que mudava o curso do rego do quintal, um dia perguntou-me pela minha mãe, instintivamente disse-lhe que não sabia.
- Pois meu menino, está no ceú não é?
Ah que terra horrível, que saudades do Porto, do triciclo. O meu pai comprou-me uma bicicleta, não sabia andar, mas também pouco tinha andado de triciclo. Era agora o melhor aluno, sem a mínima dificuldade, e até isso me causava problemas, com os alunos e com os pais dos alunos, que diziam que era tudo graças às visitas da professora a minha casa. Verdade seja dita, quando ela chegava ia com o meu pai para o quintal, não sei para onde, nem me reconhecia.
O meu pai começou a trazer livros, e chocolates, tinha arranjado um emprego na construção civil. Os meninos diziam que ele nem um balde de massa sabia carregar.
As suas mãos cerceias nos dedos, o cabelo a mudar de cor, e acho que começava a gostar da professora, gostava mais do que eu, isso não era difícil.
Aprendi o caminho da mercearia, a custo o meu pai começou a permitir-me tratar da compra do pão. O senhor que o vendia, cuspia nas mãos antes de abrir o saco, depois metia as mãos lá dentro e ia contando. – Uma dúzia? Oh rapaz, estás a ouvir é uma dúzia? - Todos cuspiam, era uma terra muito fria.
Foi na mercearia que pela primeira vez desculpei aqueles meninos, dei razão à sua animalidade. Os velhos soltavam gazes para as mãos e sufocavam-nos com isso.
Corria sem parar até casa, tal era o sinistrado daquele universo, um dia embati numa senhora muito velha vinda no nada, sem dentes, com um pau na mão, corri tanto que quando me voltei para trás estava tão longe, que já não a via. Às vezes escondiam-me atrás de uma árvore para descansar. Mas, as arvores falavam, gemiam, com vozes roucas.
Tinha pesadelos, otites, constipações. Quando visse a avó logo lhe diria, do magnífico ar puro do campo. Das pessoas boas e honestas, sem as vaidades da capital, ou das grandes cidades.
Desejei revê-los a todos, mas deveria ter sido mais preciso no sonho. Na vida, foram poucos os desejos, que articulei com todas as coordenadas.
Não saiamos dali, porque o pai não tinha carro.
Chegou o Natal, o meu pai representou em miniatura, tudo o que costumava ser o nosso Natal, e eu tratei de desenhar à escala as pessoas que faltavam. Tínhamos uma árvore, que no dia seguinte tinha presentes, mas os presentes, as recompensas pareciam não funcionar naquela terra. Ali, as crianças não faziam gestos educados para obter recompensa. Limitavam-se se a apertar o nariz e as sobrancelhas e a dizer:
- Oh mãe dá-me.
Eram sacudidas de seguida, e o dá-me reportava-se a rebuçados, e chiqueletes. Mas não as chiqueletes de caixinha, que faziam musica, que tinham uma música. Não havia música por ali, só na televisão e desligavam, se estivesse a dar na mercearia.
Na festa de passagem de ano, roubaram os vasos do meu pai, porque era tradição, a festa deles era passada assim, a nossa foi com as doze passas, com orangina e champanhe, não pedi doze desejos, esbarrava sempre em um, aquilo estava a ser muito divertido até podia ser uma grande aventura, não queria ser ingrato, mas queria regressar a casa.
- Se desejares com muita força e empenho as coisas acontecem.
O meu pai tinha-se tornado um excelente cozinheiro, e já levava colegas para casa, jogavam as cartas. Um dia foi com eles a uma cidade e trouxe-me um Snoopy.
- Mas eu já tenho um pai.
- Mas não está aqui, está em casa.
- E quando voltamos para casa?
- Não te preocupes, as coisas estão quase resolvidas, em breve vamos voltar.
Regressei da escola, à frente da casa estava um carro da policia, igual aos que eu estacionava no meu playmobil, mas de sirenes desligadas. E do outro lado, estava o Mercedes, o Mercedes do meu avô. E se entrasse no carro e me escondesse, depois ia com ele, mas o meu pai ia ficar muito triste.
Entrei pelo quintal, devagarinho, fui visto por todos os vizinhos que estavam já nas janelas e nas portas, acho que naquele momento os meninos fedorentos estavam com inveja de mim.
10 comments:
Se desejares com muita força e empenho as coisas acontecem. Bem sei que não passam de palavras seguidas de outras palavras!
Desculpa lá meu mas isto é Hitchcock,não é? Só pode!
Desculpem, mas a cena de um capitulo por dia, está a ser cumprida, é ha dias publiquei 2.
:-))))))))))))))))
Eu digo o que é, não tarda, posso adiantar-vos que no penultimo capitulo, o 50, o personagem principal é encontrado morto à frente do monitor, por causa de se ter empenhado tanto no livro, ok.
Vejam se me percebem, isto pretende ser moderno.
E quando tava morto, tava bués de aflito, porque nao havia ninguem ke se lembrasse de ir ao pé do computador, kd começou a cheira mal e tal, foram lá e assim descobriram o livro e publicaram.
Mas faltam 49 episodios antes disso.
Precisava aki de uma ajuda do Mestre, pirou-se pa Lisboa o traidor.
Para já, 50 caixas de lencinhos de papel...
espero que o 50 capítulo seja entretanto alterado, ficará muito mais moderno com um happy end!
R quando é que vem o Cap. V?
Em cima não devia ser um "R" mas um "E"
Obrigado Redonda pelo interesse, mas isto não está facil, acho que coloquei o objectivo longe demais, :-)))))
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