14/09/2010

O dia da verdade

Hoje, sim hoje, faço anos, eu e estes 3 aqui em fila, atrás de mim.
Podia perfeitamente começar o meu dia de anos a distribuir chapadas. Uma, duas, três. Como se faz o som de uma chapada num escrito?
Depois sentávamos os 4 a rir, como quem acaba de bater palmas.

Meus queridos amigos, numa época em que estão em voga, as confissões e atestados pessoais de verdade, hoje é o dia em que me devo perguntar se vocês existem, ou se fui eu que vos inventei.

Supostamente hoje estaríamos aqui a fazer, o que fizemos exactamente há um ano atrás, a comemorar o meu aniversário. Mas essa mesma comemoração, há um ano atrás, ditava o fim do meu tempo.

Pois, hoje é o dia da verdade, o dia em que vos confesso, e aguentem-se como puderem, que eu morri há um ano, apenas programei o bloguer. Há um ano meus amigos, que estou morto.

Como poderei explicar então os comentários em tempo real nos vossos espaços?
Vocês é que insistiram, e continuaram a dar-me vida. Não tenho eu obrigação de decifrar a vossa verdade, seria cobarde ao faze-lo, a verdade é um contexto, e o nosso, não permite grandes conclusões.

Mas não se dilacerem. Então os jantares, os almoços, os risos foram partilhados com um fantasma? Ora, nada nos garante, que a morte não tem corpo, riso e raciocínio.

A minha verdade e que só a mim compete decifrar, vocês acreditam se quiserem, é que eu já morri. Não se riam, embora eu tenha uma inesgotável vontade de rir, não é por vos ter enganado que me rio, é que com os amigos rimos sempre, ainda que os universos não sejam os mesmos.

Morri e morri bem. Como morri, não sei, apenas vos garanto que o meu corpo estava lá estendido e eu não conseguia parar de rir. Ás vezes olhava-me de esguelha, e desatávamos os dois a rir, disfarçadamente. Tínhamos que manter a teatralidade. Para a maioria das almas seria drástico verificar que o morto, alem de se propagar em 3 dimensões, também apresentava movimento.

E tenho-vos acompanhado, numa hilariante troca de dados, que nem chegais a perceber. E rio-me, rio, rio, e isso, é que me faz questionar, raio de defeito, nem depois de morto, deixo de rir, um morto com pouco siso é uma coisa perigosa.

Garanto-vos que não há qualquer diferença. Tenho me dado ao luxo, de implicar o meu corpo, cérebro e alma contra as barreiras, com toda a força que consigo, como estou morto, não causo grandes danos, mas ainda assim, aquela coragem de me atirar porque sei que não morro, é uma cena fenomenal.

Espero que não cortem o convívio comigo, agora que sabem que não existo, que não se deixem afectar por esse pormenor da tangibilidade, não desenvolvam complexos, agora que falam e comem com os mortos.

Que interesse tem isso, se serei sempre vosso amigo.

12 comments:

Blimunda disse...

Espantoso! Foi-se um Saramago mas ficou um bom discípulo.

Blimunda disse...

Então, tá! Continuemos esta tertúlia de morte.

Mofina disse...

Parvo — Hou daquesta!
Diabo — Quem é?
Parvo — Eu soo. É esta a naviarra nossa?
Diabo — De quem?
Parvo — Dos tolos.
Diabo — Vossa. Entra!
Parvo — De pulo ou de voo? Hou! Pesar de meu avô!
Soma, vim adoecer e fui má hora morrer, e nela, para mi só.
Diabo — De que morreste?
Parvo — De quê? Samicas de caganeira.
Diabo — De quê?
Parvo — De caga merdeira!
Má rabugem que te dê!

Mofina disse...

Unforgettable!

jg disse...

Quessedizer o gajo faz anos mas não se chega à frente...
Sovina, pá.
A tua sorte é eu gramar-te aos montes.
PARABÉNS!!!!!!!

Agora, estraga-te!

redonda disse...

Parabéns!

E apesar da revelação muito ligeiramente preocupante e perturbadora não me deixarei afectar pelo aludido pormenor!
(e neste momento até me pergunto se também existo ou não...)

Funes, o memorioso disse...

Este post foi um dos melhores que escrevi. Não sei bem porquê, saem-me bem os posts, quando o sonho que estou a ter reveste a forma de "Privada, o bacoco".

mac disse...

Que bom, privada, espero que quando eu morrer fique assim também, morta de riso

Blimunda disse...

Era o que faltava! Declaro, atesto e protesto que este post escrevi-o eu, na minha décima quarta ascensão à dimensão da morte. Estava com um pé lá e outro cá, por isso a imperceptibilidade concreta e absoluta. Mas isso o que interessa se seremos sempre amigos?!

Blimunda disse...

Confessa tu agora, estragaste-te, não foi?

privada disse...

Confesso que essa foi boa.

Amil Neila disse...

Só tenho um comentário: Fodassssss.