09/09/2010

Hoje, partiu um amigo.


Um amigo daqueles com quem nunca falamos de nós.
Apenas de livros, de situações, de leis, de notícias políticas nacionais e internacionais.

Não me lembro de uma única vez, em que tivéssemos falado da nossa vida em particular, algumas situações relativas a trabalho, mas sempre na esfera das hipóteses, das tendências, do mercado. Ainda que as lágrimas nos irassem os olhos, tínhamos sempre um livro, um exemplo, daqueles que estão para alem da dor de tocar em assuntos, que só à individualidade do ser pertencem.

No entanto, partilhávamos o mais íntimo, através dos outros. Piscávamos o olho perante uma frase ou uma conclusão. Na verdade, os dois estranhávamos, mas nunca comentamos o facto de partilharmos involuntariamente tanta coisa.

Partiu de madrugada, com a formalidade inerente aos amigos que de facto se prezam, enviou-me um email, curto, impecavelmente redigido e esse dom não partilhamos, alias não partilhamos nada que seja vivo ou palpável, sobre filosofia e poupança

«Nos momentos maus, que sempre os há, mantenha Nietzche perto de si, poupa muito dinheiro em medicamentos »

Ri, como não podia deixar de rir. Nestas despedidas há um pouco de fim e de morte.
Talvez, um dia nos reencontremos. Ou não, tanto faz.
O abraço final?
Não, antes um cotovelo na mesa a segurar o cigarro e o sorriso no rosto perante mais uma teoria. Não responderei ao email.
Provavelmente não trocaremos mais emails, o nosso contacto será a memória maior, os dois apreciávamos, o prazer que a morte deixa, ao não permitir despedida.

Troco o cigarro de mão, e sei que no comboio, ri também, antes de colocar os phones com a nona sinfonia e dar inicio a uma nova partida.

3 comments:

Funes, o memorioso disse...

E náo é que este é um belíssimo post?
Eu só poria, no fim, a sétima sinfonia, em vez da nona.

mac disse...

Um bom amigo, privada

Blimunda disse...

Não fiques triste. Se estiveres atento, puderás ver que hoje pode chegar outro amigo.

Bom dia, Privada, meu amigo.